Acidente na ferrovia do Bom Oriente acirra as discussões sobre atividades mineradoras na região

Uma composição de treze vagões transportando ferro de um trem da mineradora Nexus descarrilou e provocou um acidente na última segunda-feira (16) em um trecho da Estrada de Ferro Bom Oriente (EFBO), na região da cidade de Santa Helena, em Minas Gerais. Wanderson Aquino de Souza, (47) e Emerson Carille Ferreira (53) eram os maquinistas quem conduziam o trem e não resistiram aos ferimentos.

Reconstituição do momento do choque entre os trens (imagem ilustrativa).

Entidades da sociedade civil locais alertam para possíveis prejuízos sociais e temem que a carga transportada possa contaminar a região, nas proximidades de uma lagoa, cujo leito fica às margens da ferrovia. A ONG Águas de Minas afirmou, no entanto, que não a lagoa não foi afetada. Houve vazamento de combustível, mas a companhia afirma que já tomou as devidas medidas de prevenção. As causas do ocorrido ainda não foram esclarecidas.

Em nota oficial, a mineradora Nexus postou em uma rede social em solidarização com as vítimas e assegurou que já estão sendo feitas as investigações. “Viemos através desta nota comunicar que o acidente na noite (16) na ferrovia nas proximidades de Bom Oriente ainda não teve o laudo concluído pela perícia.
Estamos aguardando maiores informações para maiores esclarecemos, afirmamos que todas as providências cabíveis já foram tomadas.”

Residência atingida por uma das locomotivas foi parcialmente destruída.


Projeto Oráculo e a Estrada de Ferro Bom Oriente

Implementado a poucos meses na cidade, o “Projeto Oráculo” prometia o desenvolvimento do munícipio de Santa Helena. No entanto, o que era para ser sinônimo de progresso acabou virando dor e tristeza em virtude das tragédias que ocorreram entre as várias famílias da região de Bom Oriente  a 75km de Belo Horizonte, local onde a Estrada de Ferro Bom Oriente atravessa.

Estrada de Ferro Bom Oriente

Construída há quatro anos, a Estrada de Ferro Bom Oriente tem cerca de 450 km, mas com novas obras na região, a pretensão é que a ferrovia corte todo o Estado de Minas Gerais. É por onde passa o minério de ferro extraído em Itabira, pela mineradora multinacional Nexus. Em toda a ferrovia existem 10 passarelas e 14 viadutos. Quem precisa cruzar a ferrovia reclama do constante perigo. Pelo menos é o que afirma a também a dona de casa Maria Leonildes que diz que por pouco não sofreu um acidente. “A gente vai tentar passar e ele não está freado. Ontem mesmo ele parou um pouco a noite e eu fui passando, e ele passou de uma vez. Eu caí aqui sentada”, relatou. 

O relatório da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) mostra que entre janeiro de 2015 e agosto deste ano foram registradas 12 mortes por atropelamento na Ferrovia Bom Oriente. O relatório diz ainda que, no mesmo local, 15 pessoas ficaram feridas.

Dentre os números dos mortos está o caso do Gustavo, de um ano e três meses, filho do trabalhador rural Evangelista Alves da Silva, que saiu engatilhando sem que ninguém visse e foi cruzar a ferrovia que passa a poucos metros da residência dele. Para o trabalhador rural, a dor da perda é sentida até hoje. “Meu filho. Era o único que eu tinha de homenzinho era esse e para mim eu sinto demais”, desabafou.

A família de Otávio culpa a companhia dona da ferrovia, pela morte do menino. A mãe da criança morta, a trabalhadora rural Leidiane Oliveira Conceição, acrescenta que o órgão não foi prestativo no momento do acidente que vitimou o bebê. “Nem a mortalha para o meu filho eles não deram de jeito nenhum. Eu enterrei ele com a roupa mesmo de casa. Só deram mesmo só o caixão e só isso”, desabafou.

Os números positivos da mineradora não apagam a revolta de quem perdeu um ente querido. A aposentada Maria Marinete de Oliveira não se conforma com a morte prematura do neto Otávio. “A companhia cresce todo dia e o meu neto não vai crescer mais. Não cresce mais”, lamentou.


Posicionamento das ONG’s


A violação dos direitos de quem mora próximo da Estrada de Ferro Bom Oriente já foi motivo de uma série de denúncias feitas a organismos internacionais pela ONG World Mining que atua em defesa das famílias atingidas pela tragédia da Nexus. “É com grande pesar que recebemos a notícia sobre a morte dos dois maquinistas, desejamos aos familiares que encontrem o conforto necessário para seguir em frente nesse momento difícil. Em relação aos moradores atingidos, estamos aliviados por não ter acontecido algo pior e esperamos que passem bem. É por causa de acidentes como esse que lutamos pela segurança dos moradores. Por mais que hajam propostas como contornar as residências, em vez de derruba-las, isso não impede acidentes como o ocorrido, que colocam em risco a vida dos moradores locais”, se posicionou a Assessoria de Comunicação.

Contradizendo os números e também os acidentes, o gerente de Segurança Operacional da Estrada de Ferro Bom Oriente, Sergio Bastos, pontua que a empresa está investindo em ações com o intuito de conscientizar a comunidade sobre a importância dos cuidados para evitar novos acidentes na localidade. “Estamos construindo 12 novos viadutos para justamente melhorar a condição de acessibilidade dessas comunidades, mas isso por si só não é suficiente e, por isso que a gente também acredita e vem investindo em ações de conscientização da comunidade, deixando claro os cuidados que eles precisam para uma convivência segura com a ferrovia. Reconhecemos que a gente teve esses eventos, mas também reconhecemos que há muita coisa sendo feita nas duas frentes de infraestrutura e, especialmente, na conscientização da comunidade”, explicou Sérgio Bastos.

Por meio da assessoria de comunicação da ONG Águas de Minas, Rafael Curto manifestou apoio e solidariedade aos parentes das vítimas do acidente em Bom Oriente. “Nós da ONG Águas de Minas manifestamos nosso apoio e solidariedade aos familiares e amigos das vítimas. Com tal acidente, reforçamos nossa posição contrária ao projeto da Mina Oráculo e a expansão ferroviária. Acidentes futuros poderão acontecer! Não podemos colocar a população de Santa Helena em risco!”, exclamou. 

Procurada para se posicionar a respeito do acidente ferroviário fatal na região do Bom Oriente, até o fim da tarde de hoje (20), a Prefeitura de Santa Helena ainda não se pronunciou.

Questionada sobre meios de transporte alternativos e mais seguros para a mineração, se os familiares das vítimas serão amparados, e sobre a tragédia, a mineradora multinacional Nexus respondeu ao Paladino. “De acordo com os procedimentos legais, estamos fazendo uma perícia para constatar quais foram as causas do acidente, ainda não obtivemos o laudo oficial. Ambientalmente falando não houve impactos, econômico também não. Além dos investimentos que são feitos diariamente ligados ao transporte, temos um programa de qualidade para prevenção de acidentes, saúde e meio ambiente. Como há um fluxo grande de movimentação é necessário estar sempre atento as condições de nossas ferrovias. Se tratando de transporte de cargas e pessoas, é comprovado que o trem é a forma mais segura. Além do mais é econômica e ecologicamente sustentável. Por estes motivos não transportamos minérios de outra forma.”, esclareceu a assessoria.

Nexus planeja expandir malha ferroviária em Santa Helena


A Associação de Moradores da Arcal - comunidade próxima ao fato, ainda não se pronunciou.

Nossa equipe continuará mantendo contato com as autoridades e empresas responsáveis pela fatalidade, para dar um posicionamento para a comunidade a fim de investigar a fundo toda essa situação no Projeto Oráculo. 






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